O Parto, 2003, no ateliê da rua Augusta. Óleo sobre MDF, 1,80 x 2 m

Durante 40 dias dos meses de fevereiro e março de 2003, trancado em meu ateliê da rua Augusta, mergulhei em mim mesmo para pintar essa série de 10 painéis para minha primeira mostra individual produzida (e estimulada) pela minha namorada Lili Ferrari que logo se tornaria minha mulher amada e mãe de minha filha Luisa.

Foi um período de grande imersão no qual pude dar forma material às imagens que visualizava na mente. Após comprar os materiais - placas de MDF na rua do Gasômetro, óleos na Casa do Artista - me desliguei do mundo exterior e passei a respirar óleo e terebentina e a exalar cores.

Tempos antes estava na Torre Norte da Berrini criando animações e interfaces para a PSN - Panamerican Sports Network, freelando pras produtoras de cinema de animação, Cartoon Network e outros tantos na era da bolha ponto com. Abandonei tudo pra simplesmente pintar. Pintei nesse ateliê por 2 anos, mas foram esses 40 dias os mais intensos.

Nesses dias, apenas Lili entrava em meu ateliê pra me levar guloseimas e beijinhos. Ficava me vendo tomado por Coltrane, enchendo as mãos de tinta e as explodindo no painel. Amo pintar assim, viceralmente, com as duas mãos, gestos largos, movimentos vigorosos que ao final levam à exaustão. Talvez pra compensar a sutileza do uso diário da tablet.

Fiz uma experiência interessante: de tão desencanado das convenções saí de meu ateliie e fui até o orelhão da esquina da Antônio Carlos - sem camisa, descalço, coberto de tinta dos pés à cabeça. Ri por dentro enquanto as pessoas se desviavam. Tudo uma questão de interface. Momento desobediência civil. Twitaria se na época tivesse Twitter: Viva Thoreau!

Com a curadoria do crítico e galerista Olívio Guedes Penteado, a mostra ocupou um belíssimo-lindíssimo casarão do início do século passado na rua Itápolis no Pacaembu durante alguns meses. Depois disso os painéis tomaram cada um o seu rumo.

É incrível pensar que há pouco mais que 100 anos, só poderíamos apreciar uma imagem se estivéssemos diante do objeto. Hoje a imagem é livre do objeto. Os painéis se foram, mas suas imagens estão em toda parte.

Schopenhauer desenvolvendo a síntese de Kant de que não temos como conhecer do mundo nada além daquilo que podemos filtrar através de nosso aparelho perceptivo nos esclarece algo fundamental. É interessante notar portanto que cada ser vendo o mundo unicamente através de sua perspectiva, captura informações que, associadas àquelas já existentes, formam redes de significados variados.

Sou um desenhador. As imagens que crio nascem de conceitos visuais que desenvolvo a partir de argumentações filosóficas.

Normalmente não espero que o observador de determinada imagem encontre essas argumentações ou busque nela qualquer significado, mas ao contrário, que busque nele mesmo o significado para a imagem que vê, através de livre-associações a partir de sua própria memória.

Toda imagem significa algo, mas nunca significa a mesma coisa para todos.

Não faz sentido portanto o criador explicar sua obra, porque tal explicação pode estar contaminada com seus equiívocos e ilusões. Cabe a ele permitir que sua imagem seja apenas uma imagem, cujo sentido e importância dependem de sua  inerente capacidade de despertar algo em quem a observa.

Assim foi quando conheci Lili. Ela despertou em mim revoluções que resultaram nessa mostra impregnada de cores e formas que nada precisam significar.

O Homem Amarelo, 2003. Óleo sobre MDF, 50 x 50 cm

O Parto, 2003. Óleo sobre MDF, 1,80 x 2 m

O Corvo, 2003. Óleo sobre MDF, 1,80 x 2 m.

Hamlet, 2003. Óleo sobre MDF, 1,80 x 2 m

Santa Ceia, 2003. Óleo sobre placa de madeira em lascas prensadas (OSB), 1,30 x 2,45m

O Alimento dos Deuses, 2003. Óleo sobre placa de madeira em lascas prensadas (OSB), 2,45 x 1,30m

Eva, 2003. Óleo sobre MDF, 1,30 x 0,90 m

Espelho, 2003. Óleo sobre MDF, 1,30 x 0,90 m

Minotauro, 2003. Óleo sobre MDF, 1,30 x 0,90 m

Espaço-tempo, 2003. Óleo sobre MDF, 1,30 x 0,90 m

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Eu no ateliê da rua Augusta

Crítica

Eterna busca…
Essa mostra de Souzacampus, tem como caminho, apresentar o pequeno hiato entre significante e significado.
Habitat da percepção.
Onde esse hiato se transforma em Todo.
Nesse lugar habita o momento pleno da criação pois, de um lado temos o figurativo e do outro o abstrato.
seu suporte - placas - apresenta uma obra com base consistente, com isso, sua criação presente sobre placas transmite um simbolismo tradicional, onde seu Ser realiza o desconfiar da Vida.
Suas estórias correm através das cores,cores plenas.
Com esse agrupamento realiza as idéias. Esse realizar de idéias, mais, o significante e o significado, torna a obra própria para a ilusão…a ilusão da busca, onde o observador ao se introduzir no aspécto pictórico junta-se com a criação do artista, chegando ao ponto culminante da Percepção…

Olívio Guedes Penteado


15 Comments on “Ensaios antrópicos: Percepção”

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  1. Lya says:

    Fantastico teu trabalho (:

  2. Liliane Ferrari says:

    o q eu digo depois desse post lindo? hein? ah te digo no ouvido! amo

  3. Flavia says:

    Edu, curti horrores! os trabalhos são lindos! E vc tava beeem diferente né? É legal ver isso!

    beijos!

  4. cybelemeyer says:

    Não me canso de ler seu post e apreciar suas obras.
    O verdadeiro artista leva seu público ao delírio, sempre, não importando quais materiais use. Pode promover o êxtase através das pinceladas, dos tubos, das linhas, das letras, das palavras…
    Simplesmente maravilhosas!
    Sou sua fã.
    Com carinho.

  5. Tatiana Serebrinsky says:

    Que lindo!
    Lindos os seus trabalhos, lindo o seu texto, sua linguagem e mais lindo ainda a sua declaração de amor pela Lili!!
    Vocês são um casal de tudo lindo com uma filha linda!
    Ufa! Quanta beleza!

  6. Fabio Lody says:

    Seus trabalhos são show!

    meus parabens irmaozinho.

    Abss

  7. Dolemes says:

    Inspiradores demais.

  8. Ricardo Poppi says:

    Puxa! Esse post me pegou de surpresa quase não reconheci a parede de tijolos em que descansa “O Parto” na primeira foto. Descanso merecido pra obra e pro artista que talvez tenha sido o que melhor captou o que acontecia naquele espaço naquele tempo. Adorei rever as pinturas, me encheu de emoção e saudade.

    Super tudo de bom pra vc e sua família, de tão especial que são!

  9. osvaldoº says:

    Oi Edu,
    NOSSA!!! Eu não conhecia suas pinturas… Fiquei muitíssimo BEM impressionado com a beleza vigorosa delas! Parabéns, meu caro!!! Mas também… com a inspiração que você tinha (tem)… Boa sorte! Bons trabalhos! Boa vida!

    ººº e onde era esse ateliê na Rua Augusta?

  10. Paulinho Ferreira says:

    Ver e rever seus trabalhos sempre foi motivo de orgulho e inpiração, e este texto singular me fez lembrar da mostra e quanto importante é ter um companheiro(a) com quem compartilhar a vida em toda sua extenção. O amor de vocês é lindo.
    Amo está família
    Bjs Paulinho ferreira

  11. Zarack says:

    Seus trabalhos são incríveis! Gosto muito do seu traço, muito legal mesmo!

    Meus parabéns brother, muito bom o trabalho!

    Abrazz

  12. Domingos Aquino says:

    Estilo forte e pessoal, sem perder o foco nem a naturalidade e intimidade com as cores… o resto é talento mesmo. Edu isso tem gente que rala a vida toda e nunca vai conquistar, eu realmente quero que você continue sempre neste caminho.
    Cedo ou tarde, nunca jamais, outros irão reconhecer…

  13. Shima says:

    Ando meio chorão ultimamente e ver teus quadros me fizeram derramar outra cachoeira.
    Obrigado pelo lava-rápido de alma.
    Amo vocês.

  14. Sara Mello says:

    “Meu-Jesus-Amado”!!!!!
    Tô arrepiada, colega!!!!
    Coisa mais espirituosa, sensacional… que calor, que amor grandioso???!!! Temos o mesmo estilo quando, o fato de “deixar que a interpretação do observador defina a obra”, fale mais alto. Adoooro isso e me encanto com as inúmeras interpretações que as pessoas lançam no ar. É o alimento para a alma do artista…
    Que trabalho incrível.
    Que 40 dias de puro êxtase!
    Muito sucesso, cada vez mais para vc.
    bj

  15. Pâmela corsi says:

    Oi eu adorei parabéns!continui asim bjsssss tudo de bom vcs mereci s2 …

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