Publicado
por souzacampus em Monday,
March 9,
2009
at 17:25.

O Parto, 2003, no ateliê da rua Augusta. Óleo sobre MDF, 1,80 x 2 m
Durante 40 dias dos meses de fevereiro e março de 2003, trancado em meu ateliê da rua Augusta, mergulhei em mim mesmo para pintar essa série de 10 painéis para minha primeira mostra individual produzida (e estimulada) pela minha namorada Lili Ferrari que logo se tornaria minha mulher amada e mãe de minha filha Luisa.
Foi um período de grande imersão no qual pude dar forma material às imagens que visualizava na mente. Após comprar os materiais - placas de MDF na rua do Gasômetro, óleos na Casa do Artista - me desliguei do mundo exterior e passei a respirar óleo e terebentina e a exalar cores.
Tempos antes estava na Torre Norte da Berrini criando animações e interfaces para a PSN - Panamerican Sports Network, freelando pras produtoras de cinema de animação, Cartoon Network e outros tantos na era da bolha ponto com. Abandonei tudo pra simplesmente pintar. Pintei nesse ateliê por 2 anos, mas foram esses 40 dias os mais intensos.
Nesses dias, apenas Lili entrava em meu ateliê pra me levar guloseimas e beijinhos. Ficava me vendo tomado por Coltrane, enchendo as mãos de tinta e as explodindo no painel. Amo pintar assim, viceralmente, com as duas mãos, gestos largos, movimentos vigorosos que ao final levam à exaustão. Talvez pra compensar a sutileza do uso diário da tablet.
Fiz uma experiência interessante: de tão desencanado das convenções saí de meu ateliie e fui até o orelhão da esquina da Antônio Carlos - sem camisa, descalço, coberto de tinta dos pés à cabeça. Ri por dentro enquanto as pessoas se desviavam. Tudo uma questão de interface. Momento desobediência civil. Twitaria se na época tivesse Twitter: Viva Thoreau!
Com a curadoria do crítico e galerista Olívio Guedes Penteado, a mostra ocupou um belíssimo-lindíssimo casarão do início do século passado na rua Itápolis no Pacaembu durante alguns meses. Depois disso os painéis tomaram cada um o seu rumo.
É incrível pensar que há pouco mais que 100 anos, só poderíamos apreciar uma imagem se estivéssemos diante do objeto. Hoje a imagem é livre do objeto. Os painéis se foram, mas suas imagens estão em toda parte.
Schopenhauer desenvolvendo a síntese de Kant de que não temos como conhecer do mundo nada além daquilo que podemos filtrar através de nosso aparelho perceptivo nos esclarece algo fundamental. É interessante notar portanto que cada ser vendo o mundo unicamente através de sua perspectiva, captura informações que, associadas àquelas já existentes, formam redes de significados variados.
Sou um desenhador. As imagens que crio nascem de conceitos visuais que desenvolvo a partir de argumentações filosóficas.
Normalmente não espero que o observador de determinada imagem encontre essas argumentações ou busque nela qualquer significado, mas ao contrário, que busque nele mesmo o significado para a imagem que vê, através de livre-associações a partir de sua própria memória.
Toda imagem significa algo, mas nunca significa a mesma coisa para todos.
Não faz sentido portanto o criador explicar sua obra, porque tal explicação pode estar contaminada com seus equiívocos e ilusões. Cabe a ele permitir que sua imagem seja apenas uma imagem, cujo sentido e importância dependem de sua inerente capacidade de despertar algo em quem a observa.
Assim foi quando conheci Lili. Ela despertou em mim revoluções que resultaram nessa mostra impregnada de cores e formas que nada precisam significar.

O Homem Amarelo, 2003. Óleo sobre MDF, 50 x 50 cm

O Parto, 2003. Óleo sobre MDF, 1,80 x 2 m

O Corvo, 2003. Óleo sobre MDF, 1,80 x 2 m.

Hamlet, 2003. Óleo sobre MDF, 1,80 x 2 m

Santa Ceia, 2003. Óleo sobre placa de madeira em lascas prensadas (OSB), 1,30 x 2,45m

O Alimento dos Deuses, 2003. Óleo sobre placa de madeira em lascas prensadas (OSB), 2,45 x 1,30m

Eva, 2003. Óleo sobre MDF, 1,30 x 0,90 m

Espelho, 2003. Óleo sobre MDF, 1,30 x 0,90 m

Minotauro, 2003. Óleo sobre MDF, 1,30 x 0,90 m

Espaço-tempo, 2003. Óleo sobre MDF, 1,30 x 0,90 m



Eu no ateliê da rua Augusta
Crítica
Eterna busca…
Essa mostra de Souzacampus, tem como caminho, apresentar o pequeno hiato entre significante e significado.
Habitat da percepção.
Onde esse hiato se transforma em Todo.
Nesse lugar habita o momento pleno da criação pois, de um lado temos o figurativo e do outro o abstrato.
seu suporte - placas - apresenta uma obra com base consistente, com isso, sua criação presente sobre placas transmite um simbolismo tradicional, onde seu Ser realiza o desconfiar da Vida.
Suas estórias correm através das cores,cores plenas.
Com esse agrupamento realiza as idéias. Esse realizar de idéias, mais, o significante e o significado, torna a obra própria para a ilusão…a ilusão da busca, onde o observador ao se introduzir no aspécto pictórico junta-se com a criação do artista, chegando ao ponto culminante da Percepção…
Olívio Guedes Penteado
O Parto, 2003, no ateliê da rua Augusta. Óleo sobre MDF, 1,80 x 2 m
Durante 40 dias dos meses de fevereiro e março de ...